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O que é storytelling transmídia?

Por: Eneias Tavares

07/07/2020

Se você está aqui, tenho certeza que sabe exatamente o que é Storytelling Transmídia, sendo um consumidor dessa nova prática narrativa há anos. Quer ver? Pense em Star Wars, Marvel, Harry Potter, Game of Thrones ou qualquer outra grande franquia que você pode encontrar em formatos – ou mídias – livro, filme, audiolivro, quadrinho, games e jogos. Pensou? Então, esses exemplos são, em maior ou menor medina, exemplos de Storytelling Transmídia.

Para começar, vamos às nossas costumeiras definições. Storytelling Transmídia é uma narrativa ou um universo ficcional cujas partes, porções ou unidades de informação – sejam elas episódios, histórias, personagens, criaturas, armas e/ou territórios, estão distribuídas em diferentes mídias, cabendo ao espectador a escolha de consumir o todo ou apenas o que preferir, sem haver perda na experiência de entretenimento.

Para darmos um exemplo, um espectador da Game of Thrones da HBO terá uma experiência ao assistir unicamente a série. Agora, se ele ou ela decidir também ler os livros de George R.R. Martin, consumir os quadrinhos, jogar os jogos e se perder no mapas – sim, os criadores produziram um set fantástico de mapas que detalha as terras e cidades da Westeros! – a experiência será bem mais completa e, possivelmente, mais satisfatória e divertida. Em resumo, Storytelling Transmídia permite que você não apenas consuma história mas transfira sua imaginação para seus universos, habitando-os e, talvez, até modificando a forma como seus criadores o pensam.

Jeff Gomes, fundador da empresa StarlightRunner, empresa especializa em desenvolver campanhas transmídia para grandes marcas comerciais, primeiramente adverte sobre o problema de tramarmos termos como “transmídia” ou “crossmedia” de forma isolada.  Para ele, essas expressões são melhor usadas quando alocadas ao lado de formas substantivas que a dão escopo, natureza e especifidade, evitando costumeiras e problemáticas ambiguidades. Ao lado do termo “storytelling”, então, Gomes define a narrativa transmídia como “aquela que se espalha por diferentes mídias, sendo que uma delas é a principal em que a maioria das pessoas vai acompanhar e se divertir, sem a necessidade de seguir o todo, mas quem o fizer terá uma experiência mais intensa” (2013, digital).

Apesar de Gomes trabalhar com o conceito há décadas, ele mesmo admite que passou utilizar a expressão Storytelling Transmedia após sua conceituação pelo acadêmico norte-americano Henry Jenkins. Principal teórico sobre fenômenos midiáticos da atualidade, especialmente no que concerne à ponte entre fenômenos populares e reflexão teórica, é dele dois dos principais estudos sobre os fenômenos midiáticos contemporâneos e sua peculiaridades transmídia: Cultura da Convergência (2009) e Cultura da Conexão (2015). No primeiro, que resulta de uma série de artigos e reflexões publicados ainda em 2003, ele revisa do seguinte modo sua própria definição do termo.

“Uma história transmídia desenrola-se através de múltiplas plataformas de mídia, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. Na forma ideal de narrativa transmídia, cada meio faz o que afaz de melhor – a fim de que uma história possa ser introduzida num filme, ser expandida pela televisão, romances e quadrinhos; seu universo possa ser explorado em games ou experimentado como atração de um parque de diversões. Cada acesso á franquia deve ser autônomo, para que não seja necessário ver o filme para gostar do game, e vice-versa. Cada produtor determinado é um ponto de acesso à franquia como um todo. A compreensão obtida por meio de diversas mídias sustenta uma profundidade de experiência que motiva mais consumo.” (2009, p. 138)

Os exemplos de como é possível essa forma ideal de narrativa transmídia remontam o universo cinematográfico de George Lucas, especialmente entre as décadas de oitenta e noventa. O seu space opera Star Wars, parte do cinema para chegar aos quadrinhos, à literatura, à televisão e aos jogos, além de uma variedade de outros produtos que tinham por objetivo menos o contar uma história e mais o fortalecimento comercial da marca.

Lucas não foi totalmente inovador nisto, uma vez que os universos quadrinísticos tanto da DC quando da Marvel comics, ainda entre as décadas de 1950 e 1960, já começavam a experimentar com adaptações ou mesmo criações inéditas baseadas em seus personagens para outras mídias.  Neste caso, todavia, praticamente inexistia qualquer vínculo entre o material fonte e a criação televisiva ou cinematográfica, a razão de encararmos esse material como exemplo daquilo que storytelling transmídia se tornaria.

Retornando a Lucas e a Star Wars, haveria duas razões para a mesma associação não ser feita. Primeiro, o fato desse “universo expandido transmídia não resultar da mente do próprio autor e sim de escritores e produtores contratados para produzir um determinado produto ou conteúdo. Ademais, tal universo passou por várias revisões, muitas vezes descartando o que fora produzido anteriormente como “não canônico”, o que acabaria revelando preocupações mais comerciais do que criativas no desenvolvimento dessas histórias. O mesmo aconteceu recentemente quando a marca Star Wars foi adquirida pela Disney, que rapidamente comunicou que a única linearidade ficcional que iria respeitar seria aquele apresentada nos filmes, o que irritou leitores e fãs que estimavam todo o restante do material produzido.

O desafio de tratarmos de grandes marcas – e o mesmo pode ser dito sobre Harry Potter, Senhor dos Anéis, Game of Trones, Marvel e tantas outras – é a dificuldade que temos em separar preocupações unicamente mercadológicas de intenções criativas. Jekins, todavia, sugere justamente que projetos transmídia mais eficazes foram aqueles que previam a participação de um criador ou equipe criativa limitada para sua execução (2009, p. 150).

Pretten reúne na figura abaixo uma estrutura básica de um storytelling transmídia enquanto ‘franchise’, que teria por âncora um uma cinematográfica e cujos elementos circundantes detalhariam, ampliariam e modificariam a percepção do espectador/leitor quanto ao que foi visto.

A partir dessa estrutura, pode-se buscar outras mídias que contarão outras partes da história principal (mainstory), produzindo assim diferentes impactos sobre o seu receptor, seja ele visual, sonoro e/ou interativo. Esta preocupação com o receptor também nos ajuda a entender uma importante particularidade do storytellingtrransmedia em comparação com outras formas narrativas. Por mais que a preocupação com o receptor/leitor esteja subentendia em toda a produção de conteúdo, por séculos viveu-se a valorização do autor ou a supremacia do texto, tendo o leitor/receptor de se adaptar a eles e não o contrário.

Quer ver um exemplo prática de Storytelling Transmídia produzindo em nosso país? Então acesse o texto sobre a franquia Brasiliana Steampunk, série desenvolvido por mim desde 2014 com o auxílio dos profissionais do Grupo EPIC. Gostou do texto? Coloque seu comentário ou pergunta abaixo. E para ter acesso a mais textos como esse, continue atento ao nosso blog e siga  EPIC Educação nas redes sociais.

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